Você realmente entende o que é a Bujinkan? – por Arnaud Cousergue

shirokuma

Quando ministro seminários me surpreendo com frequência ao descobrir os equívocos realizados tanto por professores quanto alunos ao redor do mundo. Como disse uma vez durante um seminário: “Ninguém está forçando você a ser parte da Bujinkan, se você quiser fazer suas próprias coisas, faça, mas não chame isto de Bujinkan!”.

Por isso, foi um verdadeiro prazer no último final de semana encontrar o grupo de Manolo Serrano, na Bélgica, e passar algum tempo com ele e os irmãos Mitrou, da Grécia. Todos eles 14°dan, foi bom partilhar a nossa visão da arte. No caminho de volta, pensei que seria apropriado neste espaço do blog refrescar nossa memória sobre o que é o Bujinkan realmente é.

Hatsumi sensei, quando começou espalhar sua visão sobre Budô e compartilhá-la por todo o mundo, não havia nenhum plano, nenhum processo passo-a-passo acontecendo. Hatsumi sensei estava apenas compartilhando seus conhecimentos com todos os dispostos a ouvir. Em 1983 ele publicou, em japonês, o seu primeiro Ten Chi Jin Ryaku no Maki, no qual detalhava os princípios e fundamentos da nossa arte. Um versão revisada, traduzida para o Inglês, chegou até nós da Europa em 1987. Dez anos mais tarde Hatsumi sensei decidiu seguir em frente e estabeleceu um tema e um conceito para ser trabalhado a cada ano.

Em 1993, tive a sorte de ser jûdan na Bujinkan, com fundamentos suficientemente estabelecidos para acompanhar a evolução do sensei em seus ensinamentos. Como muitos praticantes da Bujinkan de hoje não eram estudantes naquela época, gostaria de listar novamente os temas que criaram a arte como conhecemos hoje.

Após o Ten Chi Jin Ryaku no Maki, aprendemos distanciamento e angulação ao longo de 5 anos:

  • Bô jutsu – Bastão de 180cm (1993)
  • Yari jutsu – Lança (1994)
  • Naginata jutsu – Alabarda (1995)
  • Biken jutsu – Espada (1996)
  • Jo jutsu – Bastão de 90cm (1997)

Durante o Taikai de Valencia (1995) e novamente no Sanmyaku (o boletim de notícias da Bujinkan, na época) Hatsumi sensei disse que “, yari e naginata são os sanshin no kata das armas longas”.

Então entramos no mundo do budô taijutsu e estudamos não as escolas (como se frequentemente acredita), mas os 5 pilares do movimento do corpo, através de cinco dentre as nove, que foram:

  • Taihen jutsu – shinden fudo ryû (1998)
  • Daken taijutsu – kukishinden ryû (1999)
  • Koppo jutsu – roto ryû (2000)
  • Kosshi jutsu – gyokko ryû (2001)
  • Jûtaijutsu – takagi yoshin ryû (2002)

Este segundo ciclo de cinco anos, que pode estar relacionado de alguma maneira ao gogyô, nos permitiu entender (através do treino em escolas específicas) as várias formas de encarar o adversário e adaptar a nossa forma de lutar à situação.

O terceiro ciclo foi ainda mais complexo, conforme adentrávamos o mundo ou a dimensão do juppô sesshô (“Negociando nas Dez Direções”). Aquele também foi um ciclo de 5 anos. No Japão, juppô sesshô é o mais alto nível técnico e mecânico em qualquer sistema marcial (ryûha), e confere a possibilidade de adaptar uma forma específica de combate a qualquer situação encontrada. Quanto ao segundo ciclo (os 5 Pilares do budô taijutsu), o ponto importante aqui não tem nada a ver nem com a arma que usamos ou a escola estudada. O ciclo de juppô sesshô foi o seguinte:

  • Sanjigen no sekai – kunai e shotô (2003)
  • Yugen no sekai – roppô kuji no biken – espada de kukishin (2004)
  • Kasumi no hô – gyokko bô (2005)
  • Shizen – shinden fudô ryû (2006)
  • Kuki Taisho – espada e yoroi (2007)

O juppô sesshô desencorajou diversos praticantes e até hoje muitos dos shidoshi realmente não têm idéia do que foi estudado durante esses 5 anos. Muitos professores não entendem a profundidade do temos recebido. Quantos deles sabem que as técnicas de kukishin ryû bô jutsu eram usadas para ensinar o sentimento de kasumi da gyokko ryû? Também o movimento de “happo” para “juppô” deve ser visto como uma espécie de salto quântico no mundo da física da Bujinkan.

Este ciclo de juppô sesshô terminou a série que agora podemos ver como uma espécie de ten chi jin. Todos sabemos que o ten ryaku lida com o trabalho dos pés (ângulo, distância), o chi ryaku com a mecânica do corpo (budô taijutsu) e o jin ryaku com uma mistura de tudo (movimento do corpo ao espírito).

Esta progressão em 3 etapas (sanpô) de 5 anos (gohô) pode ou deve ser considerada como o verdadeiro kihon happô da Bujinkan (3 + 5 = 8!).

Então era hora de começar o estudo do shiki – consciência – do sexto elemento que o sensei introduziu à nossa comunidade, em 2005. Então, estudamos coisas mais baseadas em conceitos “filosóficos” do que em escolas ou movimentos mecânicos. Foram elas:

  • Menkyo Kaiden – destruir o processo de pensamento (2008)
  • Sainô kon ki ou saino tamashii utsuwa – a habilidade, o espírito e o recipiente (2009)
  • Rokkon shôjô – a felicidade é a essência da vida (2010).

Se Hatsumi sensei seguir o ciclo de cinco anos que ele, aparentemente, tem seguido até agora, podemos esperar o final deste para 2012. Mas é apenas um palpite.

Espero que esta pequena revisão dos vários temas tenham sido úteis para você, que agora você pode responder à pergunta inicial:

Você realmente entende o que é a Bujinkan?

Arnaud Cousergue Shihan

Tradutor: Daniel Pires
Este texto foi originalmente publicado no endereço eletrônico:
http://kumafr.wordpress.com/2010/03/29/do-you-understand-the-bujinkan/

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