Pronto para Matar seus Alunos

Este artigo foi publicado no jornal The Victoria Advocate doa dia 27 de Abril de 2016 e pode ser lido neste link.

Noda 26 de Abril – Os ensinamentos do Grão Mestre Masaaki Hatsumi ecoam em minha cabeça, enquanto ele me incumbe de atacar um discípulo faixa preta com uma espada de treino. – Esteja sempre pronto para matar seus alunos – diz ele.

Essas palavras, que me deram calafrios, vem de um homem de 76 anos, considerado por muitos “o último ninja vivo”, que guarda em seu Dojo armas como senban shuriken e nunchaku. Uma lição especialmente chocante quando ouvida por um novato, cujo contato mais íntimo com artes marciais foi assistir ao Bruce Lee nas matinês, quando criança.

Eu erguia cuidadosamente a katana, enquanto meu parceiro de treino discretamente apontava para Hatsumi. Desvio meus olhos por um instante e a próxima coisa que sei é que estou jogado ao chão, observando as traves de sustentação do telhado.

Manter o foco é apenas uma das lições marteladas nos tatames do dojo da Bujinkan, uma escola apertada, nos arredores Tóquio, que é ponto de peregrinação para mais de cem mil praticantes ao redor do mundo. Eles reverenciam Hatsumi como o último mestre vivo de Ninjutsu – a misteriosa arte da guerra japonesa, praticada por assassinos mascarados de outrora.

– Ele é ilimitado em corpo, mente e espírito. – disse Richard VanDonk, praticante que abandonou a Califórnia, sua terra natal, para vir praticar nage e outras técnicas marcais num dojo sob o brilho morno das cortinas de papel arroz e à luz de chamas tremulantes provenientes de velas. – Ele é um mestre da mudança.

Hatsumi é o único aluno ainda vivo do chamado “último nínja em atividade”, Toshitsugu Takamatsu, o 33° Grão Mestre da Togakure Ryu. Takamatsu foi guarda-costas de oficiais militares durante a ocupação da Machúria, antes da Segunda Guerra Mundial. Entre muitas histórias, conta-se que ele esteve em doze combates até morte, e venceu todos. Durante uma destas batalhas ele arrancou, com as mãos, o globo ocular de rufião chinês.

Hoje Hatsumi tem inimigos de outra ordem. Aqueles que trazem falsos esteriótipos e que buscam na antiga arte apenas fazer graça são seus maiores problemas, mas ele pretende confiar a tarefa de lidar com estes tipos a um sucessor digno. Enquanto isso especulações surgem em torno da sua aposentadoria… O Soke têm sido, de muitas maneiras, vítima do próprio sucesso: ele ajudou a tornar o ninja um termo popular internacionalmente, treinando seguidores do Chile à África do Sul, mas também assistiu seu legado ser distorcido por caricaturas apatetadas como “As Tartarugas Ninjas” e paródias hollywoodianas baratas como “Um Ninja da Pesada” – Eu acho patético. – é seu parecer sobre a imagem moderna do ninja.

Uma rápida olhada pelo dojo sugere que grande parte dos japoneses concorda, visto que a grande maioria dos estudantes é estrangeira, não raro têm passado militar, e de alguma forma ouviram falar de Hatsumi nos além-mares. Isso por que, no Japão, o Ninjutsu encontra-se mergulhando numa apatia que também aflige outras artes, como o Sumo e o Judo.

A maioria dos japoneses tem contato com artes marciais ainda na escola. Mas o número de praticantes de artes marciais tem caído desde a década de oitenta, por conseqüência de cada vez mais pessoas se voltam para esportes vindos do Ocidente, como o golf e o tênis. A Associação Japonesa de Sumo viu-se forçada a importar estrelas, devido aos tempos difíceis.

– As crianças mais novas estão mais interessadas em outros esportes mais chamativos e que estejam na moda. – comenta Makinori Matsuo, um professor associado de artes marciais da Universidade Internacional de Budo de Tóquio. – Eles tendem a ser repelidos pela imagem das artes marciais em que você deve suar muito enquanto mantém contato com outrem – justifica o profissional.

A palavra Ninja é uma composição dos kanji relativos à “Furtividade” (ou “Persistência”, dependendo da interpretação) e “Pessoa”, fazendo referência às tradicionais atuações dos shinobi (outra designação para Ninja) como espiões, mercenários ou assassinos, trabalhando para os damyo. O arsenal tradicional, como espadas e shuriken se destacam dentre os ensinamentos de Hatsumi, assim como shuko, zarabatanas e pó de pimenta arremessado nos olhos do oponente. Mas o verdadeiro Ninjutsu, diz Hatsumi, é autodisciplina e equilíbrio, tanto na sala de reuniões quanto no campo de batalha. É dominar suas fraquezas, incluindo preguiça e medo, e explorar as necessidades de seu rival, como sexo e orgulho.

Enquanto desliza suavemente pelo tatami, Hatsumi nos cobre com seus provérbios enigmáticos, que parecem vindos de pergaminhos confucianos, como “Qualquer coisa pode ser utilizada como arma” ou “O Ninjutsu é a soma de todas as coisas no universo”.

– O sincronismo é o mais difícil de se compreender e é essencial – acrescenta ele enquanto deflete casualmente o golpe de espada de um de seus alunos veteranos, que vem reluzindo rumo ao seu pescoço. Após desviar a lâmina atacante, Hatsumi torce suavemente o braço de seu portador, fazendo-o soltar um gemido sincero.

Pelo meio do dia, Hatsumi faz uma pausa para fazer seus tradicionais desenhos para alunos que ficam pedindo e enchendo seu saco, com uma folha de papel na mão . Então as coisas começam a ficar sérias novamente quanto começam a ser aplicados os testes de graduação.

Phil White, da Inglaterra, realizava seu teste para o 5° Dan. Em seiza e com os olhos fechados, aguardava o golpe de Hatsumi, que estava atrás dele, em pé, com a shinai em punhos, pronto para abrir a cabeça de seu discípulo. Se White – ainda de olhos ainda fechado – conseguisse evitar o golpe, ele se graduaria; caso contrário levaria para casa alguns machucados. A espada acerta a cabeça do inglês por duas vezes antes que ele consiga sair do caminho na terceira tentativa, o que é suficiente para agradar o mestre.

– Eu ainda estou tremendo – White disse depois, enquanto recebia cumprimentos e tapinhas nas costas de seus companheiros. – Eu não senti que eu estava me movendo. Era como se eu fosse soprado por um vento.

Hoje em dia centenas de escolas ninja, pela Europa, América do Norte e além, traça suas raízes até Hatsumi. Ele tem realizado seminários para o FBI, CIA, Mossad e para as polícias da Inglaterra, França e Alemanha. Também serviu como consultor de artes marciais em filmes como “Com 007 só se Vive Duas Vezes” e minisséries como “Shogun”. Hatsumi também deixou suas marcas em livros, autorizando muitos em inglês e japonês.

Ele diz que não está pronto para embainhar sua espada tão cedo, mas admite que a pergunta sobre quem o sucederá como líder do Ninjutsu mundial é tema constante nas fofocas de dojo. Cabe apenas à Hatsumi o direito de escolher o próximo Grão Mestre, e ele não nos dá nenhuma pista. Existe inclusive a possibilidade que o sucessor seja um não-japonês, ele diz.

– Os seres humanos sempre querem saber o que não podem. – ele diz – Mas você nunca pode predizer o futuro.

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