Procurando um professor de arte marcial – por Daniel Pires

Não creio que você queira ser este cara...

Não creio que você queira ser este cara…

Como em qualquer área, as artes marciais estão repletas de maus profissionais, só que no nosso caso há o agravante disso poder levar a um aluno a sofrer ferimentos graves ou até morrer.

Como?

Imagine o seguinte: você entrega à uma pessoa uma réplica de um revólver de brinquedo, que parece real (ao menos para a pessoa), se você aperta o gatilho faz um barulhão, mas nenhum projétil é disparado. Agora coloque esta pessoa numa situação em que ela sinta a necessidade de usar sua arma, como um sequestro: ela saca sua arma e dispara. O agressor (no caso o sequestrador) permanece ali, sem nenhum arranhão. Constatado o fato da arma não funcionar ele ou ela reagirá, provavelmente com muita violência. Se o dono do revólver de brinquedo não for morto, pelo menos sofrerá danos severos por sua reação.

Uma arte marcial mal ensinada é como entregar uma arma dessas para alguém sem avisá-la que não dispara.

Isso é um aluno de artes marciais mal orientado e por isso me refiro não apenas a movimentos ruins, mas também a conduta.

Então como achar um bom professor? Se você não tem conhecimentos mais profundos na área pode ser mais difícil, mas elaborei uma lista de elementos para ajudar a refletir na hora de escolher um professor. Eles refletem a minha experiência na área, considerando o que tenho por “boas práticas”. Frisando: são elementos para refletir, e não regras. Cada professor é um ser humano, portanto único, e cada arte possui suas particularidades. Use esta lista para lhe ajudar a ponderar, mas a tarefa e responsabilidade da decisão são suas.

Boas práticas para qualquer arte:

  • O professor se preocupa primeiramente com a postura corporal do aluno, coluna e pés nas posições corretas, no mínimo. Muitas vezes isso envolve treinos exaustivos (e às vezes dolorosos) de permanecer numa posição enquanto o professor “cutuca” o aluno para colocá-lo na postura correta.
  • Transparência quanto a origem do que está sendo ensinado. O professor dedica tempo a contar aos alunos de onde veio sua arte, quem é seu mestre, o mestre de seu mestre e assim por diante. Disponibilizar materiais para estudos além da própria palavra, como livros e filmes/documentários reforça esta prática.
  • Um bom professor tem respeito pelos seus antecessores, os professores que vieram antes dele, o que às vezes o leva a citá-los muito em aula. Se ele não respeita quem o ensinou, por que você o respeitaria?
  • A possibilidade de conhecer outras escolas não é vedada e pode até ser incentivada. Conhecimento é sempre interessante, mesmo que conhecimento “do que não é bom para si”. Um bom professor usa isso para reforçar seus ensinamentos e não isola os alunos de conhecerem outras formas de se mover. Isso vale para escolas do mesmo estilo ou de outros.*
  • Assumir suas falhas é uma característica de um bom professor. É normal que algo não saia exatamente como ele pretendia e isso não é um problema. Cada uke (pessoa que recebe a técnica) é diferente em força, tamanho, flexibilidade, vícios e experiência, por isso é normal que algo funcione de uma maneira com um aluno, mas com o outro será necessário alguma adaptação. Ter que refazer uma técnica diante da sala não é um problema.

Agora algumas boas práticas que aplico especificamente a artes que propõe-se como combativas:

  • Um bom professor não acredita que exista uma técnica infalível/invencível. É possível lidar com todo tipo de ataque ou técnica, é apenas uma questão da experiência de quem está demonstrando. Não conseguir escapar de determinado ataque não torna um professor ruim, o que torna é dizer que é impossível escapar. Este é um pensamento demasiado infantil para alguém que deseja dar aulas.
  • É dever de um professor de combate ensinar seus alunos a lidarem com a dor, que é como uma linguagem do seu corpo para lhe dizer o que está acontecendo com ele. Porém também é dever do professor zelar pela integridade do corpo do aluno. Bons professores sabem equilibrar uma aula com dor e sem machucados. Maus professores machucam seus alunos desnecessariamente ou então nunca causam dor alguma, dando ao aluno a fantasia de que é possível saber o que é um combate sem nunca ter sentido dor.
  • Professor bons nunca dizem”Ah, isso não funcionou porque numa luta real eu teria te machucado de verdade”. Isso pode sim ser verdade, mas é possível demonstrar ao aluno uma técnica mais dura sem machucá-lo. Ele pode assumir que determinado movimento é muito avançado para ele fazer sem machucar, mas esta limitação é dele, dificilmente da técnica em questão.
  • Deve-se sempre situar o aluno no que ele está fazendo. O dojo é um espaço controlado, como um laboratório, e sim, muitos dos exercícios feitos lá dentro não correspondem exatamente a uma situação real e é dever do professor situar o aluno, informá-lo se determinado exercício corresponde a algo que pode ser utilizado num combate real ou se é apenas visa adquirir outras habilidades.

Estas são minhas dicas para a hora de escolher um professor e espero que sejam úteis. Reforçando: são dicas, coisas para refletir, a decisão final é sua.

* Em alguns casos, especialmente alunos muito novos e influenciáveis podem haver ressalvas do professor não por estar escondendo algo, mas por preocupação do aluno aprender bobagens e adquirir vícios de outras escolas. Cabe ponderar.

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