Cerimônia – por Daniel Pires

É recorrente, quando se fala de cultura japonesa, lembrar dos gestos, sendo o de se curvar o mais lembrado. Isso é porque o Rei Shiki (etiqueta) é muito importante para eles, determinando desde o lado usado para carregar arma e a forma de carregá-la (Ex.: Katana, Rokushaku Bo) até como você se senta e se porta próximo ao mestre.

Muita gente pergunta o significado da cerimônia que fazemos antes e depois dos treinos e sobre as palavras que dizemos. Farei alguns esclarecimentos sobre eles, para não causar desconforto em alunos novos e nem dar margem para más interpretações.

A cerimônia é parte do que chamamos da nossa etiqueta no dojo e foi ensinada ao Soke por Takamatsu. Ela nada tem de adoração a imagens ou algo do tipo. É uma forma de cumprimentarmos o sensei (professor); de focarmos no treinamento, lembrando porque estamos ali; de deixarmos o mundo exterior lá fora e, ao sair carregarmos o dojo para o mundo; lembrarmos do caminho que a arte fez até nós, das pessoas que dedicaram suas vidas a isso, que mataram e morreram.

Seguem abaixo duas interpretações do trecho da poesia dá início e fim aos treinos – e não traduções, pois foram escritos com ideogramas, para os quais não há uma tradução exata.

Um interpretação geral, sobre o mantra todo:

Shikin Haramitsu Daikomyo

“O momento da verdadeira interação entre a mente e o espírito conduz à iluminação”

E parte por parte:

  • Shikin é a sensação e a harmonia percebida pelos sentidos do coração e da audição. É também o som criativo que nasce da união de dois pólos opostos (in/yo, yin/yang, homem/mulher).
  • Haramitsu, bem conhecido na linguagem Sânscrita como Paramita (um dos Paramita Ksanti), que é o Satori do Buda ou um estado permanente de despertar espiritual que ultrapassa os limites da vida e da morte. A essência dos seis Paramita consiste em não sentir amargura, dor ou inveja e desenvolver perseverança na relação com o mundo à nossa volta. A idéia de Hatsumi sensei é promover a sinceridade, a lealdade e a honestidade.
  • Daikomyo no Budismo significa o grande esplendor de Buda. Para nós, é a iluminação que parte de nosso interior e vai até o nosso exterior. Ele ou ela pode sentir o plano físico como a luz do nosso coração.
  • O Sanpai sahō vêm de uma tradição Shinto da manifestação do Otodama, a presença espiritual (de si) na forma de um som. No nosso caso, batemos duas palmas, nos curvamos em reverência e batemos mais uma.
  • Onegai Shimasu (dito antes do treinamento) significa neste contexto “Por favor, me instrua/oriente”.
  • Domo Arigato Gozaimashita (dito após o treinamento) é uma maneira formal de dizer “Muitíssimo Obrigado”.

Notem que a etiqueta e o respeito existem dos dois lados, o professor também é instruído e também agradece aos alunos.

Como se escreve "shikin haramitsu daikomyo", numa caneta que foi presente do Soke. =)

Como se escreve “shikin haramitsu daikomyo”, numa caneta que foi presente do Soke. =)

Este vídeo do canal School of Life apresenta brevemente as ideias de Confúcio, um filósofo chinês nos ensinou sobre a importância dos rituais e creio ser esclarecedor pensar o nosso ritual à luz de suas ideias. O vídeo está em inglês e sem legenda, infelizmente:

Espero ter ajudado a esclarecer um pouco do que fazemos dentro do dojo e fiquem à vontade para expressarem suas dúvidas.

Daniel Pires Shidoshi

P.S.: Partes deste texto foram tiradas de outros textos e outros sites.
Não tenho comigo o nome dos autores, já que são textos amplamente divulgados.
Caso você seja o autor e se sinta ofendido me comunique.

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