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Pronto para Matar seus Alunos

Este artigo foi publicado no jornal The Victoria Advocate doa dia 27 de Abril de 2016 e pode ser lido neste link.

Noda 26 de Abril – Os ensinamentos do Grão Mestre Masaaki Hatsumi ecoam em minha cabeça, enquanto ele me incumbe de atacar um discípulo faixa preta com uma espada de treino. – Esteja sempre pronto para matar seus alunos – diz ele.

Essas palavras, que me deram calafrios, vem de um homem de 76 anos, considerado por muitos “o último ninja vivo”, que guarda em seu Dojo armas como senban shuriken e nunchaku. Uma lição especialmente chocante quando ouvida por um novato, cujo contato mais íntimo com artes marciais foi assistir ao Bruce Lee nas matinês, quando criança.

Eu erguia cuidadosamente a katana, enquanto meu parceiro de treino discretamente apontava para Hatsumi. Desvio meus olhos por um instante e a próxima coisa que sei é que estou jogado ao chão, observando as traves de sustentação do telhado.

Manter o foco é apenas uma das lições marteladas nos tatames do dojo da Bujinkan, uma escola apertada, nos arredores Tóquio, que é ponto de peregrinação para mais de cem mil praticantes ao redor do mundo. Eles reverenciam Hatsumi como o último mestre vivo de Ninjutsu – a misteriosa arte da guerra japonesa, praticada por assassinos mascarados de outrora.

– Ele é ilimitado em corpo, mente e espírito. – disse Richard VanDonk, praticante que abandonou a Califórnia, sua terra natal, para vir praticar nage e outras técnicas marcais num dojo sob o brilho morno das cortinas de papel arroz e à luz de chamas tremulantes provenientes de velas. – Ele é um mestre da mudança.

Hatsumi é o único aluno ainda vivo do chamado “último nínja em atividade”, Toshitsugu Takamatsu, o 33° Grão Mestre da Togakure Ryu. Takamatsu foi guarda-costas de oficiais militares durante a ocupação da Machúria, antes da Segunda Guerra Mundial. Entre muitas histórias, conta-se que ele esteve em doze combates até morte, e venceu todos. Durante uma destas batalhas ele arrancou, com as mãos, o globo ocular de rufião chinês.

Hoje Hatsumi tem inimigos de outra ordem. Aqueles que trazem falsos esteriótipos e que buscam na antiga arte apenas fazer graça são seus maiores problemas, mas ele pretende confiar a tarefa de lidar com estes tipos a um sucessor digno. Enquanto isso especulações surgem em torno da sua aposentadoria… O Soke têm sido, de muitas maneiras, vítima do próprio sucesso: ele ajudou a tornar o ninja um termo popular internacionalmente, treinando seguidores do Chile à África do Sul, mas também assistiu seu legado ser distorcido por caricaturas apatetadas como “As Tartarugas Ninjas” e paródias hollywoodianas baratas como “Um Ninja da Pesada” – Eu acho patético. – é seu parecer sobre a imagem moderna do ninja.

Uma rápida olhada pelo dojo sugere que grande parte dos japoneses concorda, visto que a grande maioria dos estudantes é estrangeira, não raro têm passado militar, e de alguma forma ouviram falar de Hatsumi nos além-mares. Isso por que, no Japão, o Ninjutsu encontra-se mergulhando numa apatia que também aflige outras artes, como o Sumo e o Judo.

A maioria dos japoneses tem contato com artes marciais ainda na escola. Mas o número de praticantes de artes marciais tem caído desde a década de oitenta, por conseqüência de cada vez mais pessoas se voltam para esportes vindos do Ocidente, como o golf e o tênis. A Associação Japonesa de Sumo viu-se forçada a importar estrelas, devido aos tempos difíceis.

– As crianças mais novas estão mais interessadas em outros esportes mais chamativos e que estejam na moda. – comenta Makinori Matsuo, um professor associado de artes marciais da Universidade Internacional de Budo de Tóquio. – Eles tendem a ser repelidos pela imagem das artes marciais em que você deve suar muito enquanto mantém contato com outrem – justifica o profissional.

A palavra Ninja é uma composição dos kanji relativos à “Furtividade” (ou “Persistência”, dependendo da interpretação) e “Pessoa”, fazendo referência às tradicionais atuações dos shinobi (outra designação para Ninja) como espiões, mercenários ou assassinos, trabalhando para os damyo. O arsenal tradicional, como espadas e shuriken se destacam dentre os ensinamentos de Hatsumi, assim como shuko, zarabatanas e pó de pimenta arremessado nos olhos do oponente. Mas o verdadeiro Ninjutsu, diz Hatsumi, é autodisciplina e equilíbrio, tanto na sala de reuniões quanto no campo de batalha. É dominar suas fraquezas, incluindo preguiça e medo, e explorar as necessidades de seu rival, como sexo e orgulho.

Enquanto desliza suavemente pelo tatami, Hatsumi nos cobre com seus provérbios enigmáticos, que parecem vindos de pergaminhos confucianos, como “Qualquer coisa pode ser utilizada como arma” ou “O Ninjutsu é a soma de todas as coisas no universo”.

– O sincronismo é o mais difícil de se compreender e é essencial – acrescenta ele enquanto deflete casualmente o golpe de espada de um de seus alunos veteranos, que vem reluzindo rumo ao seu pescoço. Após desviar a lâmina atacante, Hatsumi torce suavemente o braço de seu portador, fazendo-o soltar um gemido sincero.

Pelo meio do dia, Hatsumi faz uma pausa para fazer seus tradicionais desenhos para alunos que ficam pedindo e enchendo seu saco, com uma folha de papel na mão . Então as coisas começam a ficar sérias novamente quanto começam a ser aplicados os testes de graduação.

Phil White, da Inglaterra, realizava seu teste para o 5° Dan. Em seiza e com os olhos fechados, aguardava o golpe de Hatsumi, que estava atrás dele, em pé, com a shinai em punhos, pronto para abrir a cabeça de seu discípulo. Se White – ainda de olhos ainda fechado – conseguisse evitar o golpe, ele se graduaria; caso contrário levaria para casa alguns machucados. A espada acerta a cabeça do inglês por duas vezes antes que ele consiga sair do caminho na terceira tentativa, o que é suficiente para agradar o mestre.

– Eu ainda estou tremendo – White disse depois, enquanto recebia cumprimentos e tapinhas nas costas de seus companheiros. – Eu não senti que eu estava me movendo. Era como se eu fosse soprado por um vento.

Hoje em dia centenas de escolas ninja, pela Europa, América do Norte e além, traça suas raízes até Hatsumi. Ele tem realizado seminários para o FBI, CIA, Mossad e para as polícias da Inglaterra, França e Alemanha. Também serviu como consultor de artes marciais em filmes como “Com 007 só se Vive Duas Vezes” e minisséries como “Shogun”. Hatsumi também deixou suas marcas em livros, autorizando muitos em inglês e japonês.

Ele diz que não está pronto para embainhar sua espada tão cedo, mas admite que a pergunta sobre quem o sucederá como líder do Ninjutsu mundial é tema constante nas fofocas de dojo. Cabe apenas à Hatsumi o direito de escolher o próximo Grão Mestre, e ele não nos dá nenhuma pista. Existe inclusive a possibilidade que o sucessor seja um não-japonês, ele diz.

– Os seres humanos sempre querem saber o que não podem. – ele diz – Mas você nunca pode predizer o futuro.

O que aprendemos numa aula de budo taijutsu?

O que é Budo taijutsu-

Procurando um professor de arte marcial – por Daniel Pires

Não creio que você queira ser este cara...

Não creio que você queira ser este cara…

Como em qualquer área, as artes marciais estão repletas de maus profissionais, só que no nosso caso há o agravante disso poder levar a um aluno a sofrer ferimentos graves ou até morrer.

Como?

Imagine o seguinte: você entrega à uma pessoa uma réplica de um revólver de brinquedo, que parece real (ao menos para a pessoa), se você aperta o gatilho faz um barulhão, mas nenhum projétil é disparado. Agora coloque esta pessoa numa situação em que ela sinta a necessidade de usar sua arma, como um sequestro: ela saca sua arma e dispara. O agressor (no caso o sequestrador) permanece ali, sem nenhum arranhão. Constatado o fato da arma não funcionar ele ou ela reagirá, provavelmente com muita violência. Se o dono do revólver de brinquedo não for morto, pelo menos sofrerá danos severos por sua reação.

Uma arte marcial mal ensinada é como entregar uma arma dessas para alguém sem avisá-la que não dispara.

Isso é um aluno de artes marciais mal orientado e por isso me refiro não apenas a movimentos ruins, mas também a conduta.

Então como achar um bom professor? Se você não tem conhecimentos mais profundos na área pode ser mais difícil, mas elaborei uma lista de elementos para ajudar a refletir na hora de escolher um professor. Eles refletem a minha experiência na área, considerando o que tenho por “boas práticas”. Frisando: são elementos para refletir, e não regras. Cada professor é um ser humano, portanto único, e cada arte possui suas particularidades. Use esta lista para lhe ajudar a ponderar, mas a tarefa e responsabilidade da decisão são suas.

Boas práticas para qualquer arte:

  • O professor se preocupa primeiramente com a postura corporal do aluno, coluna e pés nas posições corretas, no mínimo. Muitas vezes isso envolve treinos exaustivos (e às vezes dolorosos) de permanecer numa posição enquanto o professor “cutuca” o aluno para colocá-lo na postura correta.
  • Transparência quanto a origem do que está sendo ensinado. O professor dedica tempo a contar aos alunos de onde veio sua arte, quem é seu mestre, o mestre de seu mestre e assim por diante. Disponibilizar materiais para estudos além da própria palavra, como livros e filmes/documentários reforça esta prática.
  • Um bom professor tem respeito pelos seus antecessores, os professores que vieram antes dele, o que às vezes o leva a citá-los muito em aula. Se ele não respeita quem o ensinou, por que você o respeitaria?
  • A possibilidade de conhecer outras escolas não é vedada e pode até ser incentivada. Conhecimento é sempre interessante, mesmo que conhecimento “do que não é bom para si”. Um bom professor usa isso para reforçar seus ensinamentos e não isola os alunos de conhecerem outras formas de se mover. Isso vale para escolas do mesmo estilo ou de outros.*
  • Assumir suas falhas é uma característica de um bom professor. É normal que algo não saia exatamente como ele pretendia e isso não é um problema. Cada uke (pessoa que recebe a técnica) é diferente em força, tamanho, flexibilidade, vícios e experiência, por isso é normal que algo funcione de uma maneira com um aluno, mas com o outro será necessário alguma adaptação. Ter que refazer uma técnica diante da sala não é um problema.

Agora algumas boas práticas que aplico especificamente a artes que propõe-se como combativas:

  • Um bom professor não acredita que exista uma técnica infalível/invencível. É possível lidar com todo tipo de ataque ou técnica, é apenas uma questão da experiência de quem está demonstrando. Não conseguir escapar de determinado ataque não torna um professor ruim, o que torna é dizer que é impossível escapar. Este é um pensamento demasiado infantil para alguém que deseja dar aulas.
  • É dever de um professor de combate ensinar seus alunos a lidarem com a dor, que é como uma linguagem do seu corpo para lhe dizer o que está acontecendo com ele. Porém também é dever do professor zelar pela integridade do corpo do aluno. Bons professores sabem equilibrar uma aula com dor e sem machucados. Maus professores machucam seus alunos desnecessariamente ou então nunca causam dor alguma, dando ao aluno a fantasia de que é possível saber o que é um combate sem nunca ter sentido dor.
  • Professor bons nunca dizem”Ah, isso não funcionou porque numa luta real eu teria te machucado de verdade”. Isso pode sim ser verdade, mas é possível demonstrar ao aluno uma técnica mais dura sem machucá-lo. Ele pode assumir que determinado movimento é muito avançado para ele fazer sem machucar, mas esta limitação é dele, dificilmente da técnica em questão.
  • Deve-se sempre situar o aluno no que ele está fazendo. O dojo é um espaço controlado, como um laboratório, e sim, muitos dos exercícios feitos lá dentro não correspondem exatamente a uma situação real e é dever do professor situar o aluno, informá-lo se determinado exercício corresponde a algo que pode ser utilizado num combate real ou se é apenas visa adquirir outras habilidades.

Estas são minhas dicas para a hora de escolher um professor e espero que sejam úteis. Reforçando: são dicas, coisas para refletir, a decisão final é sua.

* Em alguns casos, especialmente alunos muito novos e influenciáveis podem haver ressalvas do professor não por estar escondendo algo, mas por preocupação do aluno aprender bobagens e adquirir vícios de outras escolas. Cabe ponderar.

Chegando atrasado – por Daniel Pires

Corre, Jack, corre que chegar atrasado não é legal.

Corre, Jack! Corre para não chegar atrasado.

Este texto trata-se do atraso, mas apenas no que concerne o comportamento dentro do Dojo.

Aulas tem um horário de início e um horário de encerramento e isso é levado em consideração pelo professor quando ele planeja as aulas. A sequência como todo é importante. No Komainu Butoku Dojo começamos com junan taiso, fazemos exercícios de taihenjutsu (que também nos ajudam a aquecer o corpo), seguimos com algum kihon e depois seguimos com técnicas mais específicas. Se um aluno perde o início da aula ele irá treinar sem se alongar e talvez sem o aquecimento adequado. Neste aspecto é ruim para o aluno. E é ruim para o professor, que pode ter que lidar posteriormente com problemas decorrentes desse treino deficiente, caso o atraso seja recorrente.

Nossas aulas começam com um ritual ou uma cerimônia, no qual mudamos nossas mentes para o “modo dojo”, deixamos nossos problemas lá fora e no focamos exclusivamente no treino. O aluno que chega atrasado perde isso. Ainda que faça o ritual sozinho (o que deve ser feito) posso dizer que nestes 13 anos pouquíssimas vezes eu o vi sendo feito de fato, com o coração envolvido e a disposição de desprender-se do mundo exterior, em geral é “apenas um protocolo”.

Quando alguém chega no meio de um exercício este não sabe o que está acontecendo, não sabe o que o professor almeja com determinado kata (forma ou técnica utilizada para o ensino). Um exercício com espada pode estar focado em trabalhar maai (noção de distância) e o aluno atrasado dispersa atenção ou comentários na posição dos pés ou de como se segura a espada. Sim, tudo isso é importante, mas especialmente quando se trata de alunos novos é interessante trabalhar um elemento por vez – um kamae (postura) é bastante complexo e envolve ao menos uma dezena de detalhes para se dominar (são mais, na verdade) e não adianta buscar entender (ou querer que o outro entenda) todos, é trabalho do professor responsável observar qual aspecto é mais adequado de ser exercitado naquele momento.

No Butoku Dojo buscamos nos aproximar do método de ensino que observamos nossos mestres no Japão utilizando que consiste no seguinte: o aluno atrasado deve ficar fora do tatami, vestir o Do Gi (traje de treino), iniciar o junan taiso (preparação do corpo, alongamentos e aquecimento) e aguardar, observando o que está acontecendo, até que o professor o convide a se juntar ao grupo.

Ganbatte!

Aprendendo com o(s) senpai – por Daniel Pires

Kanji para Senpai.

Kanji para Senpai.

O Butoku Dojo existe no Brasil há 11 anos, com sede em Campinas. Michael sensei começou a ministrar aulas no primeiro semestre de 2004 e ao longo deste tempo formamos algumas dezenas de shodan (primeiro grau da faixa-preta), duas ou três, nem todos residentes na nossa cidade. Alguns destes ficaram conosco e outros seguiram por caminhos diferentes, mas o fato é que hoje é que contamos com um número bom de shidoshi-ho (professor-monitor) em Campinas, o que além de elevar o nível dos treinos confere aos professores locais uma grande ajuda.

Não foram poucas as vezes que Michael sensei teve que se ausentar (para seminários em outras localidades ou outros motivos) e os alunos mais velhos assumiram os treinos. Isso é normal aqui em em diversos outros dojo. Houve quem não gostasse, afinal porque ter aula com alguém que não é o professor que escolhi?

Em primeiro lugar porque seu sensei confiou àquele aluno a responsabilidade de dar aula no dojo. Ele é seu senpai e é seu dever apoiá-lo, enquanto aluno membro do dojo. No Japão (origem da nossa arte) senpai é o termo que usamos para se referir ao aluno mais velho, e este cumpre um papel fundamental no dojo: ele auxilia o sensei e atua como ponte entre ele e os alunos mais novos. Um aluno mukyu (faixa-branca) diante de um sensei 15 dan é como um aluno do primeiro ano fundamental numa aula de faculdade.

Em segundo lugar para que você possa conhecer outras formas de se mover. Sim, é claro que os alunos tendem a mover-se de maneira parecida com seu professor, mas uma das características do Budo é que ele se adapta ao praticante. Uma pessoa de porte físico avantajado não tem como (nem porquê) mover-se da mesma maneira que outra menor e mais esguia. Muitas vezes um aluno mais velho tem um tipo físico muito mais próximo do seu e é capaz de lhe ensinar algo de maneira diferente, por vezes até mais fácil de compreender.

Aulas com o senpai são uma oportunidade de aprender coisas novas ou as mesmas coisas de maneira diferente. Aproveitem e não deixem seus egos lhes cegarem para isso.

Bufu Ikkan,

Daniel Pires Shidoshi

Breve apresentação de Shuriken Jutsu – por Daniel Pires

Este post não pretende ser um extenso tratado sobre shuriken, apenas apresentar estas armas e dar uma breve explicação do seu uso. Pretensiosamente acabar um pouco com a fantasia em torno das “estrelas ninja”.

O que é um Shuriken?

São armas de arremesso divididas – grosso modo – em dois grupo: Semban Shuriken (ou Hira Shuriken) e Bo Shuriken. No primeiro se enquadram as lâminas planas, ou achatadas, com três ou mais pontas, que variam de acordo com a escola (ryuha) ou mesmo idiossincrasia do artesão. Abaixo temos alguns exemplos:

1

(na imagem acima existem dois que não são Semban/Hira Shuriken, são as duas lâminas no canto inferior esquerdo)

2

 

Bo Shuriken, o segundo grupo, são armas de duas pontas, algumas em formato cilindrico (como pregos), quadrado ou ainda achatadas, como facas. Alguns exemplos:

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Usos do Shuriken

Contrariando a senso comum, o a função do shuriken é menos de uma arma mortal – como geralmente é mostrada ou citadas – e mais um instrumento de distração. São armas versáteis, utilizadas para conseguir brechas para um ataque mais letal ou a fuga. Não atingem grandes profundidades, e exigem muito treino para se conseguir uma proficiência que lhe torne realmente perigoso com ela, capaz de atingir, por exemplo, uma artéria ou veia no pescoço durante combate real, onde tudo é mais difícil do que no Dojo.

Alguns dizem que elas eram mergulhadas em veneno, mas especialmente no caso das Semban Shuriken, o risco de se envenenar com sua própria arma é muito grande, não só na hora de arremessar, mas também no transporte, já que são feitas para serem carregadas ocultas, junto ao corpo. Acontecia às vezes do ninja em questão levar o veneno consigo num fracos e aplicá-lo na hora o arremesso, mas é uma situação específica e premeditada.

Uma forma interessante de lutar com Shuriken além de arremessá-las é usá-las ocultas na mão, para furar e cortar, num combate mais próximo. Pessoas de fora costumam nem perceber que você está com uma arma até que vejam sangue.

Daniel Pires Shidoshi

Velocidade no Treino de Artes Marciais – por Robin Doenicke

Robin Doenicke sensei

Robin Doenicke sensei

As pessoas às vezes perguntam por que somos encorajados pelo Soke e pelos Shihan a nos mover lentamente durante os treinos. Essas pessoas comumente seguem essa colocação com comentários como “Mas uma luta real não seria bem mais rápida e explosiva?”. Deparei-me com um interessante artigo sobre a questão da velocidade quando estava aprendendo sobre uma arte marcial interna de origem chinesa, o Tai Chi, que acredito tratar esta questão maneira apropriada:

“Tai Chi é normalmente realizado com dois tipos de velocidade. Noventa e nove por cento dos movimentos de Tai Chi são feitos muito lenta, suave e plenamente*. No entanto, mesmo que você se mova suave e plenamente é possível ir do movimento lento para o muito lento, para o super lento quase como um melaço escorrendo de uma colher. Alcançar o absoluto pináculo da vagareza permite o seu sistema nervoso central libertar-se totalmente e tornar-se equilibrado. Com isso você se torna capaz, se assim optar, de mover-se em alta velocidade, à vontade. Este um método básico através do qual a real velocidade é alcançada no treinamento Tai Chi como arte marcial. Libertar suficientemente o sistema nervoso torna possível para o seu corpo mover-se em qualquer velocidade, virtualmente sem barreiras internas.

Robin Doenicke Shihan

*Nota de Tradução: no original a palavra usada foi “evenly”, numa tradução mais direta “uniforme”, porém optei por “pleno” por representar mais a totalidade do movimento, não só no sentido de uno, mas de completo, no caso a compreensão do mesmo.

Tradutor: Daniel Pires
Revisor: Gustavo Sícoli

Cerimônia – por Daniel Pires

É recorrente, quando se fala de cultura japonesa, lembrar dos gestos, sendo o de se curvar o mais lembrado. Isso é porque o Rei Shiki (etiqueta) é muito importante para eles, determinando desde o lado usado para carregar arma e a forma de carregá-la (Ex.: Katana, Rokushaku Bo) até como você se senta e se porta próximo ao mestre.

Muita gente pergunta o significado da cerimônia que fazemos antes e depois dos treinos e sobre as palavras que dizemos. Farei alguns esclarecimentos sobre eles, para não causar desconforto em alunos novos e nem dar margem para más interpretações.

A cerimônia é parte do que chamamos da nossa etiqueta no dojo e foi ensinada ao Soke por Takamatsu. Ela nada tem de adoração a imagens ou algo do tipo. É uma forma de cumprimentarmos o sensei (professor); de focarmos no treinamento, lembrando porque estamos ali; de deixarmos o mundo exterior lá fora e, ao sair carregarmos o dojo para o mundo; lembrarmos do caminho que a arte fez até nós, das pessoas que dedicaram suas vidas a isso, que mataram e morreram.

Seguem abaixo duas interpretações do trecho da poesia dá início e fim aos treinos – e não traduções, pois foram escritos com ideogramas, para os quais não há uma tradução exata.

Um interpretação geral, sobre o mantra todo:

Shikin Haramitsu Daikomyo

“O momento da verdadeira interação entre a mente e o espírito conduz à iluminação”

E parte por parte:

  • Shikin é a sensação e a harmonia percebida pelos sentidos do coração e da audição. É também o som criativo que nasce da união de dois pólos opostos (in/yo, yin/yang, homem/mulher).
  • Haramitsu, bem conhecido na linguagem Sânscrita como Paramita (um dos Paramita Ksanti), que é o Satori do Buda ou um estado permanente de despertar espiritual que ultrapassa os limites da vida e da morte. A essência dos seis Paramita consiste em não sentir amargura, dor ou inveja e desenvolver perseverança na relação com o mundo à nossa volta. A idéia de Hatsumi sensei é promover a sinceridade, a lealdade e a honestidade.
  • Daikomyo no Budismo significa o grande esplendor de Buda. Para nós, é a iluminação que parte de nosso interior e vai até o nosso exterior. Ele ou ela pode sentir o plano físico como a luz do nosso coração.
  • O Sanpai sahō vêm de uma tradição Shinto da manifestação do Otodama, a presença espiritual (de si) na forma de um som. No nosso caso, batemos duas palmas, nos curvamos em reverência e batemos mais uma.
  • Onegai Shimasu (dito antes do treinamento) significa neste contexto “Por favor, me instrua/oriente”.
  • Domo Arigato Gozaimashita (dito após o treinamento) é uma maneira formal de dizer “Muitíssimo Obrigado”.

Notem que a etiqueta e o respeito existem dos dois lados, o professor também é instruído e também agradece aos alunos.

Como se escreve "shikin haramitsu daikomyo", numa caneta que foi presente do Soke. =)

Como se escreve “shikin haramitsu daikomyo”, numa caneta que foi presente do Soke. =)

Este vídeo do canal School of Life apresenta brevemente as ideias de Confúcio, um filósofo chinês nos ensinou sobre a importância dos rituais e creio ser esclarecedor pensar o nosso ritual à luz de suas ideias. O vídeo está em inglês e sem legenda, infelizmente:

Espero ter ajudado a esclarecer um pouco do que fazemos dentro do dojo e fiquem à vontade para expressarem suas dúvidas.

Daniel Pires Shidoshi

P.S.: Partes deste texto foram tiradas de outros textos e outros sites.
Não tenho comigo o nome dos autores, já que são textos amplamente divulgados.
Caso você seja o autor e se sinta ofendido me comunique.

Você realmente entende o que é a Bujinkan? – por Arnaud Cousergue

shirokuma

Quando ministro seminários me surpreendo com frequência ao descobrir os equívocos realizados tanto por professores quanto alunos ao redor do mundo. Como disse uma vez durante um seminário: “Ninguém está forçando você a ser parte da Bujinkan, se você quiser fazer suas próprias coisas, faça, mas não chame isto de Bujinkan!”.

Por isso, foi um verdadeiro prazer no último final de semana encontrar o grupo de Manolo Serrano, na Bélgica, e passar algum tempo com ele e os irmãos Mitrou, da Grécia. Todos eles 14°dan, foi bom partilhar a nossa visão da arte. No caminho de volta, pensei que seria apropriado neste espaço do blog refrescar nossa memória sobre o que é o Bujinkan realmente é.

Hatsumi sensei, quando começou espalhar sua visão sobre Budô e compartilhá-la por todo o mundo, não havia nenhum plano, nenhum processo passo-a-passo acontecendo. Hatsumi sensei estava apenas compartilhando seus conhecimentos com todos os dispostos a ouvir. Em 1983 ele publicou, em japonês, o seu primeiro Ten Chi Jin Ryaku no Maki, no qual detalhava os princípios e fundamentos da nossa arte. Um versão revisada, traduzida para o Inglês, chegou até nós da Europa em 1987. Dez anos mais tarde Hatsumi sensei decidiu seguir em frente e estabeleceu um tema e um conceito para ser trabalhado a cada ano.

Em 1993, tive a sorte de ser jûdan na Bujinkan, com fundamentos suficientemente estabelecidos para acompanhar a evolução do sensei em seus ensinamentos. Como muitos praticantes da Bujinkan de hoje não eram estudantes naquela época, gostaria de listar novamente os temas que criaram a arte como conhecemos hoje.

Após o Ten Chi Jin Ryaku no Maki, aprendemos distanciamento e angulação ao longo de 5 anos:

  • Bô jutsu – Bastão de 180cm (1993)
  • Yari jutsu – Lança (1994)
  • Naginata jutsu – Alabarda (1995)
  • Biken jutsu – Espada (1996)
  • Jo jutsu – Bastão de 90cm (1997)

Durante o Taikai de Valencia (1995) e novamente no Sanmyaku (o boletim de notícias da Bujinkan, na época) Hatsumi sensei disse que “, yari e naginata são os sanshin no kata das armas longas”.

Então entramos no mundo do budô taijutsu e estudamos não as escolas (como se frequentemente acredita), mas os 5 pilares do movimento do corpo, através de cinco dentre as nove, que foram:

  • Taihen jutsu – shinden fudo ryû (1998)
  • Daken taijutsu – kukishinden ryû (1999)
  • Koppo jutsu – roto ryû (2000)
  • Kosshi jutsu – gyokko ryû (2001)
  • Jûtaijutsu – takagi yoshin ryû (2002)

Este segundo ciclo de cinco anos, que pode estar relacionado de alguma maneira ao gogyô, nos permitiu entender (através do treino em escolas específicas) as várias formas de encarar o adversário e adaptar a nossa forma de lutar à situação.

O terceiro ciclo foi ainda mais complexo, conforme adentrávamos o mundo ou a dimensão do juppô sesshô (“Negociando nas Dez Direções”). Aquele também foi um ciclo de 5 anos. No Japão, juppô sesshô é o mais alto nível técnico e mecânico em qualquer sistema marcial (ryûha), e confere a possibilidade de adaptar uma forma específica de combate a qualquer situação encontrada. Quanto ao segundo ciclo (os 5 Pilares do budô taijutsu), o ponto importante aqui não tem nada a ver nem com a arma que usamos ou a escola estudada. O ciclo de juppô sesshô foi o seguinte:

  • Sanjigen no sekai – kunai e shotô (2003)
  • Yugen no sekai – roppô kuji no biken – espada de kukishin (2004)
  • Kasumi no hô – gyokko bô (2005)
  • Shizen – shinden fudô ryû (2006)
  • Kuki Taisho – espada e yoroi (2007)

O juppô sesshô desencorajou diversos praticantes e até hoje muitos dos shidoshi realmente não têm idéia do que foi estudado durante esses 5 anos. Muitos professores não entendem a profundidade do temos recebido. Quantos deles sabem que as técnicas de kukishin ryû bô jutsu eram usadas para ensinar o sentimento de kasumi da gyokko ryû? Também o movimento de “happo” para “juppô” deve ser visto como uma espécie de salto quântico no mundo da física da Bujinkan.

Este ciclo de juppô sesshô terminou a série que agora podemos ver como uma espécie de ten chi jin. Todos sabemos que o ten ryaku lida com o trabalho dos pés (ângulo, distância), o chi ryaku com a mecânica do corpo (budô taijutsu) e o jin ryaku com uma mistura de tudo (movimento do corpo ao espírito).

Esta progressão em 3 etapas (sanpô) de 5 anos (gohô) pode ou deve ser considerada como o verdadeiro kihon happô da Bujinkan (3 + 5 = 8!).

Então era hora de começar o estudo do shiki – consciência – do sexto elemento que o sensei introduziu à nossa comunidade, em 2005. Então, estudamos coisas mais baseadas em conceitos “filosóficos” do que em escolas ou movimentos mecânicos. Foram elas:

  • Menkyo Kaiden – destruir o processo de pensamento (2008)
  • Sainô kon ki ou saino tamashii utsuwa – a habilidade, o espírito e o recipiente (2009)
  • Rokkon shôjô – a felicidade é a essência da vida (2010).

Se Hatsumi sensei seguir o ciclo de cinco anos que ele, aparentemente, tem seguido até agora, podemos esperar o final deste para 2012. Mas é apenas um palpite.

Espero que esta pequena revisão dos vários temas tenham sido úteis para você, que agora você pode responder à pergunta inicial:

Você realmente entende o que é a Bujinkan?

Arnaud Cousergue Shihan

Tradutor: Daniel Pires
Este texto foi originalmente publicado no endereço eletrônico:
http://kumafr.wordpress.com/2010/03/29/do-you-understand-the-bujinkan/
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